A estética (juízo de valor inerente a uma apreensão?) é algo que sempre direcionou as criações e comportamentos humanos. Muito se diz sobre o belo, o feio, o disforme... mas, de fato, como falar sobre isso de um modo mais “digno”?
Faz sentido nos prendermos a aparência? Faz sentido não nos prendermos a aparências? Existe algo belo ou feio em essência?
Vou remontar algo não-linear da história da arte, mais precisamente da música e da pintura:
A “música ocidental” de modo geral por muito tempo foi calcada em convenções. A primeira (o modalismo) foi derivada dos gregos, a segunda (o tonalismo, até hoje a mais utilizada) foi se desenvolvendo ao longo do tempo.
São apenas 12 as notas que compõem o tonalismo e praticamente toda a música ocidental: Dó, Dó Sustenido, Ré, Ré Sustenido, Mi, Fá, Fá Sustenido, Sol, Sol Sustenido, Lá, Lá Sustenido e Si.
Eis que agrupamos tais notas em seqüências de tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom; por exemplo, na escala de Dó, o famoso “Dó – Ré – Mi – Fá – Sol – Lá – Si”.
Pois bem, falando de modo super-resumido, a música ocidental prendeu-se até praticamente o século XX nessas fórmulas limítrofes de composição. Isso envolveu crenças, convenções, imposições da Igreja Católica, entre outros.
Eis que, mais precisamente na Europa da segunda metade do século XX, os compositores começaram a querer quebrarem aqueles moldes. Começaram então a buscar métodos de composição alicerçados no Atonalismo (não existia mais uma “nota base” (vulgo tônica) para qual todas as outras estavam submetidas, todos os intervalos eram iguais, nada de tons e semitons, apenas tons), no Dodecafonismo (a colocação das 12 notas, sem a repetição na seqüência (vulgo cromatismo) já mencionada anteriormente, o que dava uma atmosfera “flutuante” para a música), entre outros.
Pois bem, eles então foram se abrindo para os sons em geral, para os “microtons” (os sons que se encontravam entre os tons e semitons e que não eram explorados há séculos). Para a surpresa de muitos compositores desavisados, no Oriente, citando como exemplo a Índia, ao invés de utilizarem-se de apenas 12 notas (possibilidades dentro da música, salvo com a variação da “qualidade” do som (vulgo timbre)), os indianos utlizavam-se de centenas de notas e variações de como agrupá-las.
Ou seja, o que era estético para a música ocidental (e ainda é na “música popular” em geral) era completamente ultrapassado por séculos de música indiana.
Quem está “certo” aí? Nós - exponencialmente mais limitados - ou eles? Nós, julgando que tínhamos uma música "madura", não passávamos de bebês engatinhando.
Enfim, chega de música e vamos para a pintura, tentarei resumir mais.
Na “pintura clássica” havia uma preocupação muito grande com o “contorno dos corpos” (que, na natureza, não existe), com o retrato mais fidedigno possível do que nós apreendíamos no cotidiano. Tudo era um jogo muito simplório de luz e sombra, de cores já exploradas e visualizadas.
No “advento do Impressionismo” (para utilizar-me de uma expressão didática), pintores e pesquisadores dos sentidos humanos em geral começaram a observar que cada apreensão tinha inúmeras peculiaridades. Por exemplo, uma mesma catedral poderia ser pintada de vários modos - em várias épocas do ano, com luz e cores diversas (devido a um tempo nublado ou ensolarado).
Os impressionistas começaram a explorar essas apreensões, quebrando a idéia do suposto “contorno bruto” das coisas e deixando de lado apenas o jogo de cores bem delineado.
Vieram então os “pós-impressionistas”, os mesmos começaram a quebrar com as cores visualizadas de modo fisiológico e com a pincelada (o que já ocorria um pouco no impressionismo), explorando modos diversos de pintura. Por exemplo, Cézanne, ao invés de usar a cor laranja, criava toda uma obra com pequenos “pontinhos” de cor amarela e vermelha, assim, ambos próximos, observados de longe, formariam a ilusão da cor ser laranja. Essa “vertente” também abriu o campo da liberdade artística em expressar os objetos em quaisquer cores. Assim vemos quadros de pessoas com rosto verde (o que ocorre no cotidiano, dependendo da luz que incidir no momento), coisa que nunca ocorreria anteriormente.
Voltando ao papo central da estética e citando um exemplo, Van Gogh produziu em torno de 700 quadros, todos carregados de uma pincelada insigne, de uma textura considerada grosseira, de uma coloração que chocava o senso estético geral da época. Van Gogh, não sendo compreendido pelo público geral de sua época, influenciou Picasso e outros grandes pintores que, posteriormente, criariam o cubismo (a “nova revolução”). Hoje o pintor é considerado um gênio e suas obras possuem um valor inestimável para as pessoas da área.
Finalizando, a música e a pintura hoje chegaram a uma verdadeira suruba (para utilizar-me de uma palavra apropriada para o momento).
Na música existem de "sons para meditação" (por vezes com uma única nota sendo repetida) até o "Noise puro", em que podem ser explorados quaisquer elementos de microtons, timbres e tempos penetrando-se, sem que possa ser captado por uma lógica, digamos, linear.
Diria que meu senso estético é um eterno mutante; penso que abertura a possibilidades cada dia mais diversas e ricas me tornou um ser que não possui mais juízos de valor em determinados assuntos, por este motivo me privo de discussões inúteis com "intelectuais". A arte, a filosofia e a ciência criam justificativas para o que não necessita ser justificado, criam convenções teóricas estúpidas que quase sempre não possuem ligação com o que há de impetuoso e essencial na obra dos autores.
Todo juízo de valor é estúpido e temporal, inclusive este que agora vos dirijo; só a sensibilidade de quem apreende é “além do bem e do mal” no campo da (a)estética. O signo e a métrica pouco importam para aqueles que aprofundam-se, que deixam-se tomar pelo universo e pelo momento, que tornam-se honestos com sua infinita ignorância, que tornam-se alheios aos apelos dos homens, que produzem sua própria arte bem longe do burburinho.
Em suma, o que é (a)estético é o que o "eu", em seu infinito movimento e limitação, pensa ser. Não existem motivos para discussões artísticas quando ninguém consegue sequer classificar o que é arte ou deixa de ser.
Projetos em parceria:
Assinar:
Postar comentários (Atom)
4 voz(es):
Se alguém tiver paciência para ler tudo e tiver dúvidas,- só comentar aqui. Peço desculpas pelos termos mais técnicos, foram necessários para que pudesse explorar essa aparente pseudo-questão, com alicerces em achismos e preconceitos que nada dizem.
Oi.Você provavelmente não deve se lembrar de mim.Eu era um rapaz(quando ainda tinha internet em casa e não levava uma vida nômade de lan-houses) que falava esporadicamente no msn com você.Mas não que isso seja importante.
É só que...Bem, eu li muitos dos posts deste blog.E eu te admiro muito.(Ou passei a te admirar lendo o que você pensa, tanto faz).
Feliz 2008.
É claro que me lembro de você, Cássio! Puxa... quanto tempo hein. Legal você ainda lembrar deste espaço, acho que o pegou bem no início, não?
Como anda a vida?! Que me conta? Sinto falta de nossas conversas completamente insanas, hehe... você é uma das poucas pessoas que me compreendia.
Se quiser trocar idéia mais à vontade, manda e-mail no surrealismometalinguistico@hotmail.com
Você ainda tem algum espaço na internet? Seu blog era admirável.
Forte abraço!
Não gosto de pensar se faz ou não sentido nos prendermos a qualquer coisa porque, primeiro, parece-me mais fácil falar em "fazer sentido" quando se estabelece um referêncial qualquer que direcione a apreciação(fazer sentido para quê? para quem?), posto que tudo pode fazer ou não fazer sentido e, segundo, "prender-se" costuma não fazer sentido para mim. (rs)
No entanto, penso que seja inevitável refutar as aparências porque vivemos delas, por elas e para elas. Qualquer relação social é calcada em aparências. O que se faz, fala ou se escreve são aparências do que se sente. O pensamento é pura aparência, porquanto estimulado por elas, por convenções, convicções e por funcionar a base de linguagem. Só o que se sente é essencial, embora provocado por aparências.
Talvez toda essa (a)estetização da arte e toda a discussão acerca dela "faça sentido" enquanto expressão da ânsia, inerente ao ser humano, de se encontrar uma tal "essência" inerente às coisas, de explicar o que lhe roça os sentidos, de buscar finalidade para tudo, de categorizar tudo... enfim.
Mas a arte está para além dos cacoetes humanos. Para além dos rótulos. Para além de aparências, apesar de "ser" aparência.
(reflexão)
...Se a sensibilidade de quem apreende é a pedra de toque da arte... quem confere "arte" a um trabalho? O autor ou o público?
Estranho... agora já não sei mais quem é o artista da história...
...
A propósito, obrigada pelos textos que sacodem as idéias, meu caro Thiago. Saudades dos bons tempos de msn, rs
Abraço
Postar um comentário