Interlúdio Atonal

Tudo é uma coisa só, nada é uma coisa só. Depende apenas de estarmos vivos ou mortos, depende apenas de nossas limitações. É possível flertar com níveis de (in)consciência e sensibilidade nunca alcançados anteriormente; para isso não é necessário muito labor, mas estar aberto às possibilidades do vir-a-ser externo e interno, sem querer agarrar-se às denominações, ao confortável e à quimera do estático.

Desconhecemos o que pensam do que pensamos, desconhecemos o que pensam do que escrevemos, desconhecemos-nos a todo instante.

Não sei o que fui ou serei, apenas sou. E o que sou? Não me importa. Se isso me fizesse falta eu não estaria (vi)vendo, apenas estaria pensando.

Se, como diriam os materialistas, só somos algo a partir de nossos sentidos (fisiológicos), então podemos ser aquilo que suportamos, pensamos, sentimos e imaginamos.

Somos estrelas, somos os outros, somos o ser e o não-ser, somos impressão, somos expressão, somos Tudo e Nada. Mas somos, acima de tudo, a coisa bruta que se esconde atrás desses nomes que nada verdadeiramente nos dizem.

A realidade só poderia ser apreendida se um ser pudesse parar todo o Cosmos e, ainda assim, ser adstrito às leis (daquele instante) do movimento e dotado de uma "consciência total e totalmente" das possibilidades do real. Tal ser seria incapaz de comunicar-se numa linguagem inteligível, pois toda linguagem é limítrofe. E, mesmo supondo o contrário, que algo pudesse expressar toda a "Verdade"; a mesma se esfacelaria no instante seguinte, onde as inúmeras combinações destruiriam qualquer pretensão de conhecimento fixo, e tudo voltaria a ser incognoscível e inapreensível por qualquer sistema lógico.

Só a expressão e a impressão devem guiar a vida; qualquer gênero de razão é um mero sistema, é uma mera delimitação feita por causa de nossas limitações, é uma mera ilusão.