Projetos em parceria:
Toda linguagem foi inventada na busca do ato tentando expressar uma intenção essencial e inerente ao ato. Posto isto, muito do que julgam “anti-arte” nada mais é do que a tentativa de retorno da intenção para o ato puro.
O verdadeiro artista é aquele que definha (e até morre) por sua arte. Toda profundidade nos perturba de modo irremediável.
Não existe "pós-modernidade", só temos tal ilusão por causa da velocidade da divulgação. Em todas as épocas foi revisto, mesclado e transformado o que foi produzido anteriormente; tudo sempre coexistiu; é bobagem pensarmos que agora somos mais "livres para criar" e que possuímos menos preconceitos, quando pouquíssimos, em verdade, possuem verdadeira coragem para romper com o alheio.
Um pouco de história, estória e (a)estética:
A estética (juízo de valor inerente a uma apreensão?) é algo que sempre direcionou as criações e comportamentos humanos. Muito se diz sobre o belo, o feio, o disforme... mas, de fato, como falar sobre isso de um modo mais “digno”?
Faz sentido nos prendermos a aparência? Faz sentido não nos prendermos a aparências? Existe algo belo ou feio em essência?
Vou remontar algo não-linear da história da arte, mais precisamente da música e da pintura:
A “música ocidental” de modo geral por muito tempo foi calcada em convenções. A primeira (o modalismo) foi derivada dos gregos, a segunda (o tonalismo, até hoje a mais utilizada) foi se desenvolvendo ao longo do tempo.
São apenas 12 as notas que compõem o tonalismo e praticamente toda a música ocidental: Dó, Dó Sustenido, Ré, Ré Sustenido, Mi, Fá, Fá Sustenido, Sol, Sol Sustenido, Lá, Lá Sustenido e Si.
Eis que agrupamos tais notas em seqüências de tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom; por exemplo, na escala de Dó, o famoso “Dó – Ré – Mi – Fá – Sol – Lá – Si”.
Pois bem, falando de modo super-resumido, a música ocidental prendeu-se até praticamente o século XX nessas fórmulas limítrofes de composição. Isso envolveu crenças, convenções, imposições da Igreja Católica, entre outros.
Eis que, mais precisamente na Europa da segunda metade do século XX, os compositores começaram a querer quebrarem aqueles moldes. Começaram então a buscar métodos de composição alicerçados no Atonalismo (não existia mais uma “nota base” (vulgo tônica) para qual todas as outras estavam submetidas, todos os intervalos eram iguais, nada de tons e semitons, apenas tons), no Dodecafonismo (a colocação das 12 notas, sem a repetição na seqüência (vulgo cromatismo) já mencionada anteriormente, o que dava uma atmosfera “flutuante” para a música), entre outros.
Pois bem, eles então foram se abrindo para os sons em geral, para os “microtons” (os sons que se encontravam entre os tons e semitons e que não eram explorados há séculos). Para a surpresa de muitos compositores desavisados, no Oriente, citando como exemplo a Índia, ao invés de utilizarem-se de apenas 12 notas (possibilidades dentro da música, salvo com a variação da “qualidade” do som (vulgo timbre)), os indianos utlizavam-se de centenas de notas e variações de como agrupá-las.
Ou seja, o que era estético para a música ocidental (e ainda é na “música popular” em geral) era completamente ultrapassado por séculos de música indiana.
Quem está “certo” aí? Nós - exponencialmente mais limitados - ou eles? Nós, julgando que tínhamos uma música "madura", não passávamos de bebês engatinhando.
Enfim, chega de música e vamos para a pintura, tentarei resumir mais.
Na “pintura clássica” havia uma preocupação muito grande com o “contorno dos corpos” (que, na natureza, não existe), com o retrato mais fidedigno possível do que nós apreendíamos no cotidiano. Tudo era um jogo muito simplório de luz e sombra, de cores já exploradas e visualizadas.
No “advento do Impressionismo” (para utilizar-me de uma expressão didática), pintores e pesquisadores dos sentidos humanos em geral começaram a observar que cada apreensão tinha inúmeras peculiaridades. Por exemplo, uma mesma catedral poderia ser pintada de vários modos - em várias épocas do ano, com luz e cores diversas (devido a um tempo nublado ou ensolarado).
Os impressionistas começaram a explorar essas apreensões, quebrando a idéia do suposto “contorno bruto” das coisas e deixando de lado apenas o jogo de cores bem delineado.
Vieram então os “pós-impressionistas”, os mesmos começaram a quebrar com as cores visualizadas de modo fisiológico e com a pincelada (o que já ocorria um pouco no impressionismo), explorando modos diversos de pintura. Por exemplo, Cézanne, ao invés de usar a cor laranja, criava toda uma obra com pequenos “pontinhos” de cor amarela e vermelha, assim, ambos próximos, observados de longe, formariam a ilusão da cor ser laranja. Essa “vertente” também abriu o campo da liberdade artística em expressar os objetos em quaisquer cores. Assim vemos quadros de pessoas com rosto verde (o que ocorre no cotidiano, dependendo da luz que incidir no momento), coisa que nunca ocorreria anteriormente.
Voltando ao papo central da estética e citando um exemplo, Van Gogh produziu em torno de 700 quadros, todos carregados de uma pincelada insigne, de uma textura considerada grosseira, de uma coloração que chocava o senso estético geral da época. Van Gogh, não sendo compreendido pelo público geral de sua época, influenciou Picasso e outros grandes pintores que, posteriormente, criariam o cubismo (a “nova revolução”). Hoje o pintor é considerado um gênio e suas obras possuem um valor inestimável para as pessoas da área.
Finalizando, a música e a pintura hoje chegaram a uma verdadeira suruba (para utilizar-me de uma palavra apropriada para o momento).
Na música existem de "sons para meditação" (por vezes com uma única nota sendo repetida) até o "Noise puro", em que podem ser explorados quaisquer elementos de microtons, timbres e tempos penetrando-se, sem que possa ser captado por uma lógica, digamos, linear.
Diria que meu senso estético é um eterno mutante; penso que abertura a possibilidades cada dia mais diversas e ricas me tornou um ser que não possui mais juízos de valor em determinados assuntos, por este motivo me privo de discussões inúteis com "intelectuais". A arte, a filosofia e a ciência criam justificativas para o que não necessita ser justificado, criam convenções teóricas estúpidas que quase sempre não possuem ligação com o que há de impetuoso e essencial na obra dos autores.
Todo juízo de valor é estúpido e temporal, inclusive este que agora vos dirijo; só a sensibilidade de quem apreende é “além do bem e do mal” no campo da (a)estética. O signo e a métrica pouco importam para aqueles que aprofundam-se, que deixam-se tomar pelo universo e pelo momento, que tornam-se honestos com sua infinita ignorância, que tornam-se alheios aos apelos dos homens, que produzem sua própria arte bem longe do burburinho.
Em suma, o que é (a)estético é o que o "eu", em seu infinito movimento e limitação, pensa ser. Não existem motivos para discussões artísticas quando ninguém consegue sequer classificar o que é arte ou deixa de ser.
Faz sentido nos prendermos a aparência? Faz sentido não nos prendermos a aparências? Existe algo belo ou feio em essência?
Vou remontar algo não-linear da história da arte, mais precisamente da música e da pintura:
A “música ocidental” de modo geral por muito tempo foi calcada em convenções. A primeira (o modalismo) foi derivada dos gregos, a segunda (o tonalismo, até hoje a mais utilizada) foi se desenvolvendo ao longo do tempo.
São apenas 12 as notas que compõem o tonalismo e praticamente toda a música ocidental: Dó, Dó Sustenido, Ré, Ré Sustenido, Mi, Fá, Fá Sustenido, Sol, Sol Sustenido, Lá, Lá Sustenido e Si.
Eis que agrupamos tais notas em seqüências de tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom; por exemplo, na escala de Dó, o famoso “Dó – Ré – Mi – Fá – Sol – Lá – Si”.
Pois bem, falando de modo super-resumido, a música ocidental prendeu-se até praticamente o século XX nessas fórmulas limítrofes de composição. Isso envolveu crenças, convenções, imposições da Igreja Católica, entre outros.
Eis que, mais precisamente na Europa da segunda metade do século XX, os compositores começaram a querer quebrarem aqueles moldes. Começaram então a buscar métodos de composição alicerçados no Atonalismo (não existia mais uma “nota base” (vulgo tônica) para qual todas as outras estavam submetidas, todos os intervalos eram iguais, nada de tons e semitons, apenas tons), no Dodecafonismo (a colocação das 12 notas, sem a repetição na seqüência (vulgo cromatismo) já mencionada anteriormente, o que dava uma atmosfera “flutuante” para a música), entre outros.
Pois bem, eles então foram se abrindo para os sons em geral, para os “microtons” (os sons que se encontravam entre os tons e semitons e que não eram explorados há séculos). Para a surpresa de muitos compositores desavisados, no Oriente, citando como exemplo a Índia, ao invés de utilizarem-se de apenas 12 notas (possibilidades dentro da música, salvo com a variação da “qualidade” do som (vulgo timbre)), os indianos utlizavam-se de centenas de notas e variações de como agrupá-las.
Ou seja, o que era estético para a música ocidental (e ainda é na “música popular” em geral) era completamente ultrapassado por séculos de música indiana.
Quem está “certo” aí? Nós - exponencialmente mais limitados - ou eles? Nós, julgando que tínhamos uma música "madura", não passávamos de bebês engatinhando.
Enfim, chega de música e vamos para a pintura, tentarei resumir mais.
Na “pintura clássica” havia uma preocupação muito grande com o “contorno dos corpos” (que, na natureza, não existe), com o retrato mais fidedigno possível do que nós apreendíamos no cotidiano. Tudo era um jogo muito simplório de luz e sombra, de cores já exploradas e visualizadas.
No “advento do Impressionismo” (para utilizar-me de uma expressão didática), pintores e pesquisadores dos sentidos humanos em geral começaram a observar que cada apreensão tinha inúmeras peculiaridades. Por exemplo, uma mesma catedral poderia ser pintada de vários modos - em várias épocas do ano, com luz e cores diversas (devido a um tempo nublado ou ensolarado).
Os impressionistas começaram a explorar essas apreensões, quebrando a idéia do suposto “contorno bruto” das coisas e deixando de lado apenas o jogo de cores bem delineado.
Vieram então os “pós-impressionistas”, os mesmos começaram a quebrar com as cores visualizadas de modo fisiológico e com a pincelada (o que já ocorria um pouco no impressionismo), explorando modos diversos de pintura. Por exemplo, Cézanne, ao invés de usar a cor laranja, criava toda uma obra com pequenos “pontinhos” de cor amarela e vermelha, assim, ambos próximos, observados de longe, formariam a ilusão da cor ser laranja. Essa “vertente” também abriu o campo da liberdade artística em expressar os objetos em quaisquer cores. Assim vemos quadros de pessoas com rosto verde (o que ocorre no cotidiano, dependendo da luz que incidir no momento), coisa que nunca ocorreria anteriormente.
Voltando ao papo central da estética e citando um exemplo, Van Gogh produziu em torno de 700 quadros, todos carregados de uma pincelada insigne, de uma textura considerada grosseira, de uma coloração que chocava o senso estético geral da época. Van Gogh, não sendo compreendido pelo público geral de sua época, influenciou Picasso e outros grandes pintores que, posteriormente, criariam o cubismo (a “nova revolução”). Hoje o pintor é considerado um gênio e suas obras possuem um valor inestimável para as pessoas da área.
Finalizando, a música e a pintura hoje chegaram a uma verdadeira suruba (para utilizar-me de uma palavra apropriada para o momento).
Na música existem de "sons para meditação" (por vezes com uma única nota sendo repetida) até o "Noise puro", em que podem ser explorados quaisquer elementos de microtons, timbres e tempos penetrando-se, sem que possa ser captado por uma lógica, digamos, linear.
Diria que meu senso estético é um eterno mutante; penso que abertura a possibilidades cada dia mais diversas e ricas me tornou um ser que não possui mais juízos de valor em determinados assuntos, por este motivo me privo de discussões inúteis com "intelectuais". A arte, a filosofia e a ciência criam justificativas para o que não necessita ser justificado, criam convenções teóricas estúpidas que quase sempre não possuem ligação com o que há de impetuoso e essencial na obra dos autores.
Todo juízo de valor é estúpido e temporal, inclusive este que agora vos dirijo; só a sensibilidade de quem apreende é “além do bem e do mal” no campo da (a)estética. O signo e a métrica pouco importam para aqueles que aprofundam-se, que deixam-se tomar pelo universo e pelo momento, que tornam-se honestos com sua infinita ignorância, que tornam-se alheios aos apelos dos homens, que produzem sua própria arte bem longe do burburinho.
Em suma, o que é (a)estético é o que o "eu", em seu infinito movimento e limitação, pensa ser. Não existem motivos para discussões artísticas quando ninguém consegue sequer classificar o que é arte ou deixa de ser.
Uma luz branca (todas as cores reunidas) pode cegar como a imersão na total escuridão; um incontável número de ruídos pode nos parecer tão vazio quanto o silêncio absoluto; o cárcere perpétuo pode ser tão perturbador quanto a plena liberdade (a causalidade, inconsciente de si, produzindo todas as coisas).
Só a imersão na totalidade da presença ou da ausência pode aflorar em nós o que há de mais essencial do ser-vivo para o ser-em-si, o que nos priva do que denominamos como "humanidade", o que nos aproxima (ou nos mescla) ao que denominamos Deus, em suma, só a total imersão pode nos fazer aflorar do Todo para o Nada, ou do Nada para o Todo.
Só a imersão na totalidade da presença ou da ausência pode aflorar em nós o que há de mais essencial do ser-vivo para o ser-em-si, o que nos priva do que denominamos como "humanidade", o que nos aproxima (ou nos mescla) ao que denominamos Deus, em suma, só a total imersão pode nos fazer aflorar do Todo para o Nada, ou do Nada para o Todo.
Primeiro soneto do ano:
.
.
Aos sem esperança
.
.
Na vasta vida vã a voz vazia
Tornou-lhe carne, pulso, artéria aorta...
Ah!, nem mais o Infinito lhe conforta,
Nem mais foges das trevas que fugia!
Não mais trazes um sonho em primazia,
Da luz lembras do dia em que era morta.
Se a desventura bate em tua porta,
Convida-a para ser a tua guia.
Cavas enfim a tua própria fenda;
Na vista do prazer aperta os passos
E abraça o teu amor, a dor tremenda...
A Dor, irmã que nunca nega o pão,
Em vista da agonia, dos espasmos,
A única que não lhe disse “não!”.
.
Aos sem esperança
.
.
Na vasta vida vã a voz vazia
Tornou-lhe carne, pulso, artéria aorta...
Ah!, nem mais o Infinito lhe conforta,
Nem mais foges das trevas que fugia!
Não mais trazes um sonho em primazia,
Da luz lembras do dia em que era morta.
Se a desventura bate em tua porta,
Convida-a para ser a tua guia.
Cavas enfim a tua própria fenda;
Na vista do prazer aperta os passos
E abraça o teu amor, a dor tremenda...
A Dor, irmã que nunca nega o pão,
Em vista da agonia, dos espasmos,
A única que não lhe disse “não!”.
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