(...)O (In)finito Atonal(...)

Algum tempo atrás tive um insight de uma magnitude tão avassaladora que me deixou inapto para o viver cotidiano por dias.

O que compreendi/senti foi mais ou menos como se pudesse resumir todas as coisas a um único ponto, como se pudesse ter uma visão geral de um universo holístico (em que todas as coisas estão interligadas), e dele pudesse galgar e/ou criar qualquer outro gênero de entendimento/significado; tudo a partir de qualquer coisa, em qualquer hora e lugar.

Todo ser vivo é feito de limitações apreensivas, mas tende ao infinitesimal no sentido de como organiza essas apreensões (um cérebro humano “na média” possui mais conexões que todas as estrelas visíveis até o momento por toda a tecnologia humana, este número corresponde a um absurdo que não caberia aqui).

Como afirmei tempos atrás: Significados, desde que existe vida, não possuem limites. Significantes, desde que existe movimento, também não.

Um universo mutável a todo instante e com constante expansão e perda de energia gera um número de possibilidades sempre maiores, mas como nenhum ser vivo pode apreendê-lo em sua forma bruta (e possivelmente infinita pensando no “infinitamente pequeno”, num mergulho infinito na “essência da matéria”), temos que nos contentar com nossas limitações de apreensão.

Para dar um exemplo de flerte de limitação tendendo ao ilimitado: um ser humano percebe sons nas freqüências entre 20 Hz e 20.000 Hz; um morcego percebe sons entre 1000 Hz e 120.000 Hz. Ambos são limitados, mas o morcego percebe freqüências altíssimas em comparação ao humano, percebe possibilidades do real já existentes que nós não podemos apreender. O "mundo sonoro bruto" do morcego é muito mais rico que o nosso; no entanto, o homem, com suas construções e significados, pôde produzir um mundo vastíssimo de possibilidades sonoras – isso para nem citar a música – e modos de interpretar e lidar com elas.

Tempos atrás, quando afirmei que havia encontrado uma espécie de fórmula para tornar qualquer possibilidade impressiva em qualquer possibilidade expressiva, provavelmente poderia soar como algo completamente ilusório; mas, neste meio tempo, enquanto lapidava minhas idéias para formar uma abordagem para infinitas abordagens, acabei me deparando com homens dos quais pude visualizar mais ou menos isso em suas obras, porém de uma forma mais branda e resumida.

Para citar um exemplo recentemente descoberto, indico que procurem saber sobre Toru Takemitsu, um compositor japonês que, através de suas impressões visuais (e, óbvio, dos significados que ele atribuía às mesmas), compunha trilhas de uma sensibilidade inefável. Ele dizia que penetrava na natureza visual e conseguia dela “extrair” as músicas, sem conseguir dizer como fazia isso. O mesmo afirmou que sua inspiração era a Natureza e os jardins japoneses, que tinham por idéia a arquitetura circular, a não-linearidade, a não finitude.

Alguns dias atrás explicitei um pouco de minhas idéias atuais a respeito de “música” e “realidade” ao Henrique Tonin e falei de algumas idéias sobre o “número pi” à Clarrissa Yemisi. Começo a pensar que talvez aja um potencial infindo que permeia todas as coisas. Penso que podemos modificar as coisas como elas estão (a parte atualizada que se mostra no momento, fruto do potencial infindo), mas não podemos acessar a fonte das mesmas por completo (que é infinita a priori, ou seja, não passível de racionalização a partir de um ser/sistema limitado).

Para que isso se torne mais didático, vou dar um exemplo de “potencial infindo” visualizável através da matemática:

O número PI representa o valor da razão entre a circunferência de qualquer círculo e seu diâmetro. É a mais antiga constante matemática que se conhece. Até o que se sabe, é um número irracional, com infinitas casas decimais e não periódico.
São conhecidas
51539600000 casas decimais de Pi, calculadas por Y. Kamada e D. Takahashi, da Universidade de Tokio em 1997. Em 21/8/1998 foi calculada pelo projeto Pihex a 5000000000000a. casa binária de Pi.

Só para vocês terem uma idéia, o pi não segue uma lógica apreensível de ordem seqüencial, e ao que tudo indica é “um número que contém quaisquer combinações de números”. Assim, teu rg, teu cpf, meu rg, meu cpf, a data de seu nascimento, a distância que estou de você, do Sol, da estrela mais longínqua do universo, o tamanho do Via Láctea em kilômetros, centímetros, milímetros... tudo, absolutamente tudo está contido nele!

Abaixo o número pi com suas primeiras 1000 casas decimais:

3.14159265358979323846264338327950288419716939
9375105820974944592307816406286089986280348253
4211706798214808651328230664709384460955058223
1725359408128481117450284102701938521105559644
6229489549303819644288109756659334461284756482
3378678316527120190914564856692346034861045432
6648213393607260249141273724587006606315588174
8815209209628292540917153643678925903600113305
3054882046652138414695194151160943305727036575
9591953092186117381932611793105118548074462379
9627495673518857527248912279381830119491298336
7336244065664308602139494639522473719070217986
0943702770539217176293176752384674818467669405
1320005681271452635608277857713427577896091736
3717872146844090122495343014654958537105079227
9689258923542019956112129021960864034418159813
6297747713099605187072113499999983729780499510
5973173281609631859502445945534690830264252230
8253344685035261931188171010003137838752886587
5332083814206171776691473035982534904287554687
3115956286388235378759375195778185778053217122
6806613001927876611195909216420198938095257201
0654858632788659361533818279682303019520353018
5296899577362259941389124972177528347913151557
4857242454150695950829533116861727855889075098
3817546374649393192550604009277016711390098488
2401285836160356370766010471018194295559619894
6767837449448255379774726847104047534646208046
6842590694912933136770289891521047521620569660
2405803815019351125338243003558764024749647326
3914199272604269922796782354781636009341721641
2199245863150302861829745557067498385054945885
8692699569092721079750930295532116534498720275
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1157352552133475741849468438523323907394143334
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Agora que um exemplo mais “palpável” (?) foi dado, quero deixar claro que o que proponho - se é que vou me fazer entender – é que ao apreendermos algo poderemos inferir quaisquer significados e dos mesmos gerar novas expressões que, conseqüentemente, gerarão novas impressões (no(s) criador(es) e nas outras consciências). O que teríamos seria um ciclo infinito de proposições que poderiam ser visualizadas de maneira lógica (através de denominações, sistemas, etc), ou só poderiam ser captadas de modo impressivo, porém dificilmente “entendidas” (como ocorre em algumas “super-estruturas” de músicas como as de Iannis Xenakis).

De uma cor, para dar um tosco exemplo, poderíamos visualizar uma nota musical; de seu traçado poderíamos inferir uma intensidade, uma altura, uma duração ou uma "variação" (aproximações de “freqüências afinadas/desafinadas”), de uma imagem poderíamos visualizar uma música riquíssima! Só o que precisaríamos seria atribuir significado a determinados elementos que apreendemos e deles extrairmos proposições expressivas de quaisquer ordens (desde que já sejam passíveis de existência).

É claro que este é um papo para, digamos, infinitas existências, mas estou estudando modos de reunir tudo o que já pensei, visualizei e senti para demonstrar várias proposições que antes soariam completamente irreconciliáveis, além das que vão se abrir a partir delas. Penso que todos os níveis de senso humano (“Arte”, “Filosofia”, “Ciência”, “Religião”, “Senso-Comum” e tudo o mais que existir interconectado ou fora disso) possam ser expandidos com esse tipo de abordagem da realidade, mas não sei até que ponto essas idéias poderão ser aceitas em curto, médio, ou até mesmo longo prazo, se é que serão.

Enfim, quem sabe não poste em breve algo que criei a partir dessa abordagem e tente explicitar as relações?

Estou aberto a possíveis dúvidas,

Forte abraço!

Choques entre Atonalismo e Minimalismo

Creio no momento que a experiência traumática (aquela que nos leva ao risco de morte do que há de mais essencial em nós), quando superada, nos dá uma visão muito mais ampla das coisas.

Alguns exemplos de sentidos únicos que perturbam a experiência geral podem ser visualizados nas obras de Iannis Xenakis, Otomo Yoshihide, Peter Brötzmann, Joel-Peter Witkin, homens com impressões e expressões tão insignes que em geral tornam-se a priori aversivos a quase tudo, mostrando como todos os seres vivos são completamente desiguais e únicos em seu mais íntimo.

A denúncia de como somos manipulados por supostas verdades (lógicas, estéticas, morais, de apreensão, etc) torna-se visível em obras artísticas do gênero, e é realmente uma pena que homens assim são tomados por patológicos (conceito já deveras obscuro e preconceituoso, a meu ver).

É curioso pensar que são poucas realmente as pessoas que são o que são. O famoso clichê do curto fio que separa a genialidade da loucura parece ser tomado como imperativo e quase todos abandonam ou não conseguem exercer seu verdadeiro potencial devido às imposições e aversões externas. O que quero dizer com isso é que todos podem ser geniais e saudáveis em um ou mais pontos e contribuir para a evolução verdadeira - a evolução dos sentidos em quaisquer facetas (social, ontológica, impressiva, expressiva, direcional, entre outros...).

Sei que a motivação possui muitos aspectos, entre eles o do sentido de integração com o próximo (coisa que é dificultada com a individualização cognitiva e tomada como ponto básico numa vida “saudável” em nossa época), mas me dói saber que quase todos os que realmente ousam plantar e colher o que a vida pode oferecer sejam isolados do mundo, assassinados, e até esquecidos.

A modernidade nos dá informação constante, mas raramente nos dá formação. É simples visualizar isso na miopia de certas pessoas que, sendo capazes de produzir obras muito maiores, contentam-se em ler/escutar/citar fulanos que sequer experenciaram a vida com uma parte ínfima do que ela pode nos dar.

Assim, tornamos-nos uma espécie que divulga exponencialmente uma ridícula involução natural dos sentidos. Pegamos a sobra dos sentidos alheios e os digerimos, e parece que caminhamos para que a próxima geração pegue nossas sobras, até que não reste sequer uma migalha de impressão com "tempero ontológico individual".

Hoje não há somente um endeusamento do fugaz e imbecil, mas também um endeusamento do “pseudo-não-fugaz”, como as modinhas “cult” que se observam por aí.

Como exemplo paga-se uma fortuna para visualizar artistas que sequer sabem reproduzir o que eles próprios fizeram anteriormente (quando sua obra não é fruto de manipulação virtual, como as vozes de cantores que são modificadas em muito em estúdios de gravação), enquanto desbravadores dos limites da percepção carecem do que há de mais básico para a sobrevivência.

O “popular”, ao invés de ter conotação ruim - posto que todos os seres vivos deveriam buscar a sua auto-realização através do exterior -, torna-se regra para a existência. A homogeneidade é tomada como ponto de partida para uma existência verdadeira. A não-reflexão, o não-contestar, a não-criação, tudo o que há de mais doentio é preenchido por um pano de fundo que o mascara com uma ideologia e justificação barata.

No mundo atual, infelizmente, proteger os direitos de uma pessoa que desrespeita e ludibria centenas de outras é tomado por dever universal, enquanto dar ouvidos aos que ousam andar sem máscaras é tomado por loucura. Ateus (como vários pastores e padres por aí) tornam-se “a voz de Deus”, possuem grande poder para modificar a realidade social vigente e são venerados; gênios como Perelman (o matemático), que poderiam mudar completamente as formas como o ser humano encara as coisas, quase morrem no anonimato e sem elementos básicos na vida.

Fernando Pessoa diria que toda aproximação é um conflito, o que é facilmente visualizado na natureza em geral. Mas nós, supostos seres racionais, queremos nos privar do conflito saudável e, com isso, esquecemos o diálogo, o experimentar, o conhecer, o se colocar no lugar do próximo... O que geralmente não levamos em conta é que quem não explode, implode, o que acaba por gerar conflitos verdadeiramente preocupantes (como as duas grandes guerras) e todos os frutos que a desigualdade e a alienação tem gerado nos mais variados campos (cultura, educação, segurança, entre outros)

Martin Buber diria que nós estamos dando pouco espaço para as relações em sua completude. Tomamos o próximo como eu-isso, somos forçados a ver o mundo como isso, quando deveríamos ver os seres e mundo como eu-tu. Carl Rogers e Fritz Perls desejariam que sonhássemos com o futuro, mas sempre estando presentes e lutando por ele no agora.

A idéia de ação e reação, existente sempre ou não, é imprescindível na tomada de nossas decisões. A elucubração quando não gera frutos práticos é completamente inútil. O pensar estar isento de responsabilidades é a pior das infantilidades. O mundo está aí, quer você queira ou não.

Como disse para uma querida amiga hoje e já parafraseando Sartre: se temos dois caminhos para escolher e optamos por não escolher nenhum deles, ainda assim já teremos escolhido.

Para finalizar com uma metáfora criada agora:

Quando trazemos uma rasa poça d'água dentro de si, qualquer débil movimento é capaz de nos mover por completo a uma nova forma. Quando nos fazemos recipientes largos e não temerosos da tempestade, a tendência que assoma é nos tornarmos maiores e, com o tempo, nos tornamos mais poderosos que a mesma em potencial. Não tenha medo de tornar-se uma tempestade e usar teu poder para vencer o que já está posto. A tempestade morre depois de cair, mas sobrevive fecundando os campos por onde passou, e um dia volta aos céus em novas possibilidades.

Não tema a vida, tema não viver.

Pássaros Sem Asas - Asas do Tédio

Tédio:

Expressão d’A Verdade

De ser e não-ser;

Hora

Sem sentido;


Estado

Catatônico; minimal;

Lacuna entre

Ser

E

Estar;


Mover

De certa coisa alguma;

Segundos que

Soam

Eternidades;


Pesadelo

De pássaros sem asas,

Porém, cheios

De

Sonhos

e Versos.

A liberdade se dá na possibilidade de re-objetivação da escolha do ato frente a um sistema pré-estabelecido que pode ser re-significado. Sendo assim, somos e não somos livres.

Um homem que esteja dirigindo, por exemplo, possui leis de trânsito para seguir. O mesmo pode escolher ultrapassar o sinal vermelho, mas estará correndo perigo de morte em alguns casos.

Sua liberdade (possibilidade de escolha de atos ou objetivos) é limitada às respostas do que ocorre ao seu redor, mas que ele também pode se opor a tais leis ou ao ambiente (dependendo também do modo como interpretar tais estímulos no momento - possibilidade de re-significação -).

Todos os seres vivos são responsáveis por boa porcentagem do que ocorre em suas vidas, mas estão sujeitos a ataques da realidade, principalmente por parte de outros seres vivos (aos quais não temos acesso ilimitado ao seu arbítrio e significados vigentes).

A consciência de possibilidades de ação e significação nos torna menos submetidos às influências externas e nos dá as ferramentas necessárias à auto-atualização. É necessário conhecer nosso corpo e seus potenciais para poder conhecer melhor a Natureza, pois ambos não fazem sentido um sem o outro, somente assim penetramos e gozamos no objetivo infindo da natureza do ser - a mudança.

Determinismo e indeterminismo são duas das maiores mentiras já inventadas.